Luzia Lobato
Não faz muito tempo, quem tinha ações do Banco do Brasil
tinha um patrimônio sólido em mãos. Hoje já não é bem
assim. A nova ordem mundial e a globalização da economia colocaram
as ações de qualquer companhia, por mais sólida que seja,
a mercê dos altos e baixos de mercados de outros países. Ainda
mais se a empresa está sujeita aos desmandos dos governos como é o
caso das estatais. Com o Banco do Brasil não foi diferente. Desde o
seu mega prejuízo em 1996, as ações da instituição
nunca mais foram as mesmas. De lá para cá, foram chamadas de
capital, grupamento, desdobramento, ofertas públicas que deixaram perdido
os acionistas. Para quem perdeu o fio da meada e não sabe o que aconteceu
com os papéis do Banco, vamos fazer uma breve retrospectiva.
Subscrição
Depois do mega prejuízo, em 1996 o Banco do Brasil precisou ser recapitalizado
e para que o governo não tivesse que injetar dinheiro diretamente na
instituição ou salvá-la através do Proer, usou
o artifício da chamada de capital para cobrir o rombo. Na chamada de
capital, o governo tomou como base a média de preço das ações
de um período anterior a divulgação do prejuízo,
quando as ações ainda estavam em alta. Na época, o lote
de mil ações para a subscrição ficou acima de R$
13,00 enquanto que na Bovespa os papéis não passavam de R$ 9,00.
Com os valores tão acima, o acionista se desinteressou e não
fez a subscrição a que tinha direito, até mesmo a Previ,
na época não comprou todas as ações que poderia.
Assim, o Tesouro ficou com a maioria dos papéis e alijou o minoritário
do BB. Depois disto, a participação do minoritário ficou
reduzida a pouco mais de 5%. Depois da última oferta pública,
ocorrida no ano passado, o Tesouro Nacional possui 68,70% e os minoritários,
incluindo a Previ e o BNDES, 31,3%.
Bônus de Subscrição
São títulos negociáveis que incorporam um direito de subscrição
de ações do capital social da empresa nas condições
constantes do certificado. Assegura-se ao titular do documento o direito de
subscrever ações do capital social da sociedade emissora, nas
condições especificadas no documento (que pode ser escritural),
em especial pelo preço e no prazo definidos, independentemente do valor
de mercado ou patrimonial da ação na época da subscrição.
Foram emitidos na época da capitalização e creditados
na posição acionária de todos os acionista do BB, na proporção
de um bônus para cada ação possuída naquela data,
distribuídos da seguinte forma: 20% da série A, 30% da série
B e 50% série C. A partir de 19.08.96, foram abertas as negociações
com bônus de subscrição nas bolsas de valores. Quem tem
direito aos Bônus pode requisitá-los em qualquer tempo, mas deve
observar o prazo de negociação dos mesmos. O prazo para a subscrição
dos Bônus da série A encerrou-se em 30/06/2001, o da série
B em 30/06/2006 e os da série C vão até 30/06/2011. Os
bônus não exercidos até a data limite estipulada para cada
série serão automaticamente cancelados. O bonista pode negociar
a qualquer momento em bolsas de valores, o seu direito aos bônus.
Grupamento
A Assembléia Geral Extraordinária, realizada em 12 de novembro
de 2003, aprovou o grupamento das ações e bônus de subscrição
na proporção de 1.000 (mil) ações/bônus existentes
por 1 (uma) ação/bônus. Quando promoveu o grupamento, o
BB deu pouquíssimas explicações sobre o objetivo do fato.
Limitou-se a esclarecer que a medida visava “potencializar o volume de
papéis do Banco negociado em Bolsa, reduzir custos operacionais e melhorar
o atendimento aos acionistas.” Então a partir de 26.01.2004, passaram
a ser negociadas somente quantidades de ações e de bônus
de subscrição agrupados, em cotação unitária.
Ou seja quem tinha 1000 ações passou a ter apenas uma com o mesmo
valor das mil. O problema maior ficou com aqueles que tinham poucas ações
e fracionadas. Quem possuía uma fração inferior a unidade
de milhar precisava arredondar. Por exemplo, quem tinha 1600 ações
precisava comprar mais 400 para ter 2000 que seriam transformadas em 2 ações
no grupamento. O acionista que não tomou esse cuidado, perdeu as 600
ações que possuía. A mesma coisa aconteceu com os bônus.
Oferta Pública
Com o objetivo de entrar no Novo Mercado da Bovespa, o BB fez, em junho de
2006, uma oferta pública de ações. A instituição
colocou a venda o equivalente a 5,5% do capital total do Banco, sendo que parte
pertencia ao BNDES e parte à Previ. A medida era necessária para
aumentar o “free-float” (circulação de ações)
no mercado. O BB ainda deve fazer novas ofertas até 2009 para atingir
os 25% “free-float” exigidos no Novo Mercado. Na época,
a demanda pelas ações do BB superou a oferta em 30%. A maioria
dos compradores eram de pessoas físicas e muitos são funcionários
do Banco.
Novo Mercado
Logo após a oferta pública, o Banco do Brasil ingressou no Novo
Mercado. Empresas que fazem parte deste segmento precisam cumprir uma série
de exigências, entre elas adotar a governança corporativa. Este é um
tipo de administração, segundo o dicionário da Web Wikipédia,
onde “sociedades empresariais são dirigidas e monitoradas pelo
mercado de capitais, envolvendo os relacionamentos entre acionistas, conselho,
diretoria e auditoria. A boa governança realiza estes objetivos em uma
maneira essencialmente livre de abusos e de corrupção e com o
devido respeito à lei.” Somente uma empresa mais transparente
e que respeita o minoritário é capaz de atrair o investidor.
Não se pode dizer que o BB tenha atingido a excelência em governança
corporativa mas pelo menos está tentando. Até 2011 o BB deve
fazer novas ofertas públicas de papéis para atingir os 25% de
ações “free-float” exigidos dentro do prazo.
Desdobramento
A partir do dia 04/06/2007 as ações foram desmembradas na proporção
de 1 para 3, ou seja, quem possui uma ação recebeu duas gratuitamente.
Foi tomada como base a posição do acionista no dia 1º de
junho. As novas ações já estão liberadas para negociação
e fazem jus integralmente aos proventos que forem declarados a partir dessa
data. Não haverá desdobramento dos bônus de subscrição
série C (BBAS13) e, portanto a proporção válida
para eventual exercício do direito desse título será alterada
para 3,131799 ações ordinárias para cada bônus de
subscrição. A medida ampliou a quantidade de ações
emitidas sem alterar o patrimônio e a participação percentual
dos acionistas. O objetivo é favorecer a liquidez e o acesso de pequenos
investidores às ações do Banco do Brasil.
Em resumo
As ações do BB ainda são um bom negócio. Basta
avaliar sua rentabilidade para ver que o investimento, a longo prazo, é muito
mais lucrativo que muitas outras modalidades. Após ser desmembrada,
no dia 04/06/07 a ação do BB fechou a cotação em
R$ 27,20. Sua rentabilidade nos últimos 30 dias foi de 5,46%. Somente
de janeiro a maio deste ano, os papéis valorizaram 32,21% e nos últimos
12 meses a rentabilidade foi de 68,26%. O mesmo acontece com os Bônus
C. Eles subiram 8,67% nos últimos 30 dias, 52,70% do início do
ano para cá e 106,90% nos últimos 12 meses.
Este histórico busca esclarecer o minoritário quanto a sua situação
dentro do quadro acionário. A descrição não nos
coloca em posição de aprovação às medidas
adotadas principalmente quando as mesmas prejudicam o acionista minoritário
e especialmente o funcionário do BB tão importante na governança
corporativa. Apesar do Banco estar alardeando a entrada no Novo Mercado ainda
adota posturas completamente divergentes à boa governança como,
por exemplo, o perdão da dívida dos usineiros, o escândalo
do mensalão (até hoje não sem esclarecimentos satisfatórios)
e mais recentemente o pacote de maldades contra os funcionários.
Publicado originalmente no jornal da UNAMIBB, Notícias do BBrasil nº 66
de Maio/Junho de 2007