O Movimento Nova Inconfidência, instituição nacionalista
devidamente legalizada no Brasil, endereçou carta aos 81 (oitenta e
um) Senadores da República manifestando o despropósito do Projeto
de Lei 4776 aprovado “a toque de caixa” pela Câmara dos Deputados,
no dia 07.06.05, em meio às denúncias de corrupção
e instalações de CPI naquela Casa.
O referido Projeto prevê o loteamento de áreas da Floresta, em
regime de concessões, por prazos de até 60 anos, renováveis
por igual período para o capital nacional e estrangeiro.
O projeto inicial como vários que o Governo FHC não conseguiu
aprovar, ganharam força com o Presidente Lula que tenta a todo custo
cumprir a Agenda Globalizante do interesse internacional.
Cópias da Carta dos Senadores foram encaminhadas à cerca de 200
entidades representativas de nossa sociedade como a CNBB, ABI, OAB, Conselhos
Federais, Jornais e Revistas de grande circulação, Comandantes
do Exército, Marinha e Aeronáutica, etc., numa tentativa de sensibilizar
a opinião pública contra mais esse desfavor de um governo eleito
sob as bandeiras do nacionalismo e da soberania.
Por oportuno encaminhamos-lhe cópia da Carta Aberta ao Secretário
Geral da ONU, solicitando auditoria e ou revisão dos termos contratuais
que constituíram nos dívida externa pelos motivos ali expostos.
Veja a Carta na íntegra.
Belo Horizonte, 09 de agosto de 2005.
Expediente endereçado aos 81 (oitenta e um) Senadores da República do Brasil
Excelentíssimo(a) Senhor(a) Senador(a) ...
Projeto de Lei nº 4776 (Em trâmite no Senado Federal) – Quando,
em 17.06.2003, o Presidente Lula mandou retirar o PL-7492/2002 (Anexo 1) enviado
ao Congresso pelo então Presidente Fernando Henrique Cardoso, acreditávamos
que assim o fizera considerando-o prejudicial à Soberania Nacional,
ao povo brasileiro e, principalmente, aos 20 milhões de habitantes da
Região Amazônica.
Em fevereiro de 2005 o referido projeto voltou ao Congresso, em sua terceira
versão, sob o nº 4776 em regime de urgência, sendo, finalmente,
aprovado pela Câmara dos Deputados, em 07.07.2005. Justamente num momento
onde a credibilidade, a honradez e a ética de alguns de nossos Deputados
começam a ser questionadas pela opinião pública por, supostamente,
estarem sendo corrompidos pelo Partido do Governo.
Se, neste momento, nos dirigimos aos ilustres Senadores, o fazemos por acreditar
na magnitude ética e moral de Vossas Excelências no estabelecimento
de leis que visem o interesse da nação e do povo brasileiro.
Antes que possamos passar a idéia de que somos contrários aos
projetos que visam salvar a Amazônia gostaríamos de adiantar que
o nosso apelo se prende apenas na necessidade de estudar, mais profundamente,
as questões que envolvem a “Gestão de Florestas Públicas
para Produção Sustentável; a criação do
Serviço Florestal Brasileiro-SFB e o Fundo Nacional de Desenvolvimento
Florestal-FNDF”.
Não desejamos questionar os processos de privatizações
passados e nem mesmo criticar a idéia das parcerias público-privadas.
Mas, não podemos deixar de aproveitar a própria experiência
quando, em nome do povo, disponibilizamos os bens que a ele pertencem.
Sabemos que o Programa de Governo do Presidente Lula tem cumprido agendas de
governos passados: a Transposição das Águas do Rio São
Francisco está na mensagem de Fernando Henrique Cardoso endereçada
ao Congresso Nacional no ano de 2000; ali, também, encontram-se os mesmos
argumentos defendidos para aprovação do Projeto de Lei 4776 (Anexo
2); a inserção de nosso povo humilde como clientes de Estabelecimentos
Bancários, foi sugerida pela ONG Diálogo Inter-Americano uma
instituição patrocinada pelo Congresso Norte Americano; o combate à fome
e a miséria foi decisão da ONU para o Milênio tendo o Banco
Mundial destinado ao Brasil 7,5 bilhões de dólares ainda não
utilizados pelo Presidente.
Na Mensagem do Presidente Fernando Henrique Cardoso, endereçada ao Congresso
Nacional, em 2000, afirma que a Conferência das Nações
Unidas Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento–ECO-92 “aprovou documento
contendo compromissos, assumidos pelo Brasil, de mudança do padrão
de desenvolvimento no próximo século, denominando-o Agenda 21” (Anexo
2).
Naquela mensagem, o então Presidente ressalta o acordo assinado pelo
Governo Federal, para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia,
com o Banco Interamericano de Desenvolvimento -BID, em maio de 1999, no valor
de US$ 75 milhões “dos quais US$ 45 milhões já estão
comprometidos com projetos que serão executados nos próximos
cinco anos (até 2005). Na primeira fase foram repassados US$ 30 milhões”.
Aquela mensagem ainda fala em projetos de conservação das Florestas
Amazônica e da Mata Atlântica envolvendo os “Recursos para
o Fortalecimento Institucional e Pesquisa Científica, estimados em US$
250 milhões, oriundos dos paises do G-7, do Tesouro Nacional e da União
Européia” (Anexo 2). Já o Banco Mundial informa que o Projeto
Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil foi
financiado com cerca de US$ 340 milhões de dólares (Anexo 3).
Temos dificuldades para entender se tais investimentos não exigem contrapartidas
ou outros interesses além da ajuda humanitária.
Nosso receio é de que o Projeto de Lei 4776 foi a solução
encontrada pelo Governo para legitimar os acordos já efetivados e legalizar
algumas situações já existentes.
Nosso temor é de que possamos estar atendendo aos interesses do capital
internacional e das decisões do Banco Mundial conforme consta de seu
Relatório 24182, de 20.05.02: “o Banco Mundial está preparando
um relatório sobre o desflorestamento na Amazônia e os resultados
dessa avaliação devem subsidiar a formulação da
estratégia de assistência do Banco”.
Vinod Thomas, Diretor do BIRD sugeriu, em 17.06.2003 “a criação
de direitos de propriedades como forma eficaz e duradoura de contribuir com
a proteção do meio ambiente, por meio de incentivos de mercado
que alterem o comportamento das pessoas em favor de atividades ambientalmente
sustentáveis. O importante é criar incentivos, além de
leis e regulamentações, que tornem o uso sustentável dos
recursos mais atrativos, principalmente para os que podem obter ganhos imediatos
com a má exploração dos mesmos”. (Anexo 4).
Antes mesmo do Projeto de Lei 4776 dar entrada no Congresso, em entrevista
ao Boletim Florestas Sustentáveis, (Anexo 5), Gregor Wolf, Coordenador
da Unidade de Florestas Tropicais (RFU) do Banco Mundial, fala sobre o plano
de trabalho da RFU para o ciclo 2005-2008: “Iremos atuar como facilitadores
entre o Brasil e a Comunidade Internacional no sentido de aprimorar o diálogo
e apoiar os doadores na otimização da Assistência Financeira
e Técnica em Desenvolvimento Sustentável que eles oferecem ao
Brasil”.
No mesmo Boletim encontra-se em destaque: “Doze anos de Brasil – O
Programa para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil é considerado
o maior programa multilateral para a proteção de florestas tropicais
em escala mundial. O Programa
existe há doze anos (sic) e nele trabalham de forma integrada o Governo
Brasileiro, a sociedade civil, a comunidade internacional e o Banco Mundial.
Com o apoio dos
países do grupo G-7, o Programa vem mostrando caminhos para o uso Sustentável
dos Recursos Naturais”.
Ainda, nesse mesmo Boletim – (importante ressaltar que sua divulgação é feita
pelo próprio Banco Mundial através do site www.worldbank.org) – encontra-se
a informação de que o Brasil assinou, no segundo semestre de
2004, empréstimo junto ao Banco Mundial para o Plano Amazônia
Sustentável (PAS), sem a informação do valor financiado.
Além disso, preocupa-nos a idéia de que é possível
conciliar o crescimento econômico com a preservação ambiental
e a distribuição de rendas, num mundo onde as desigualdades sociais
se mostram tão evidentes.
Parece-nos que a falta de uma cultura ecológica na sociedade e na política
não oferece sustentação a essa opção preservacionista.
O paradigma mundial de produção de bens materiais, que se impõe
a todos como modelo único, parece bater de frente com a proposta governamental.
Se nossos governos, há tempos, negociam nossa Floresta com Instituições
Internacionais como o Banco Mundial, o BID, e o G-7, receamos que o Congresso
Nacional possa estar sendo usado apenas para referendar o que já foi
decidido ou negociado pelo Poder Executivo.
Temos, ainda, a impressão de que só mesmo as grandes corporações
nacionais e estrangeiras, bem como os seus consórcios, teriam condições
técnico-financeiras para atender, pelo menos em tese, as exigências
das concessões; Além disso, grandes projetos logísticos
de interesse mundial já se encontram, na Amazônia, nas mãos
da Alcan Alumínio do Brasil, empresa canadense, da Vale do Rio Doce,
da Albras, da Nikon Amazon Aluminum, japonezas, da Alcoa, norte-americana,
da Shell Billington, holandesa, entre outras.
Não podemos, ainda, esquecer ou menosprezar a vontade dos madeireiros,
fazendeiros e agricultores que desejam regularizar a “posse” das áreas
ocupadas. Todos eles sabem que a madeira, a carne e a soja são produtos
que se transformam nos dólares essências a todo e qualquer governo.
Vale lembrar que o Projeto Jarí, apesar da eficácia na fabricação
da celulose tem um espaço de 115 mil hectares abertos dentro da floresta.
Segundo Aluízio Lins Leal, economista e professor da Universidade Federal
do Pará, “o problema é que muitos deles (madeireiros, fazendeiros,
plantadores de soja, ONGs, etc) não têm, digamos assim, os documentos
de garantia de propriedade. Com uma concessão dessas eles se tornam
virtualmente proprietários durante todo o tempo em que durar a concessão,
principalmente em virtude dos custos e das dificuldades de fiscalizar a imensidão
da área a ser legalizada. O último regime de concessão
de que eu tenho notícia, aliás, não é o último
e sim o primeiro que já terminou, foi o da ICOMI Indústria e
Comércio de Mineração, do grupo norte-americano Bethlehem
Steel, uma das grandes controladoras do aço no mundo. Durante 35 anos
a Steel retirou 37 milhões de toneladas de manganês no Amapá e
foi embora, deixando uma
miséria pior do que a que existia antes do começo da exploração
mineral”. (www.adunb.org.br).
Na tentativa de justificar projetos da espécie na Finlândia e
Costa Rica, o Banco Mundial afirma que “aqueles países conseguiram,
em parte, tornar as florestas mais valiosas” (Anexo 4, fl.2).
Se em parte eles conseguiram algum sucesso, não se pode dizer o mesmo
sobre a experiência realizada na Austrália, Indonésia,
Malásia, África, etc.
Temos receio de que os futuros ocupantes da Floresta sigam o exemplo do Sr.
Blairo Maggi que afirmou: “para mim, 40 por cento de aumento no desmatamento
não significa nada, não sinto a menor culpa pelo que estamos
fazendo aqui. Nós estamos falando de uma área maior do que a
Europa que nem sequer foi tocada, portanto não há nada para se
preocupar. Meu objetivo chave é triplicar a produção agrícola
no Mato Grosso em 10 anos, e desenvolver a agroindústria para agregar
valor à produção”. (Biblioteca-Textos Realidade
Brasileira – Cobrindo o Amazonas de soja – Sasha Liley – 29.12.2004).
O próprio Banco Mundial, através da WWF, confirma que “os
pecuaristas tendem a avançar floresta adentro, causando mais desmatamento”.
Eventuais multas de órgãos fiscalizadores, não intimidam
e nem diminuem seus espetaculares lucros.
Temos receio de que o Governo não consiga fiscalizar um mega-projeto
dessa envergadura, frente ao contrabando, à biopirataria e toda sorte
de sonegações e ilegalidades que poderão existir.
Temos receio de que nossa dependência externa nos faça reféns
dos juros políticos impostos pelas Instituições Financeiras
Internacionais, como o superávit primário, reformas de toda natureza,
privatizações de toda sorte, Banco Central Independente e participação
de suas ONGs nos projetos de gestão das florestas.
Temos receio de que seja verdade que em 2001 existiam 3.000 ONGs atuando na
Amazônia e que só na questão indígena havia 350
ONGs cuidando de 325 mil índios, segundo o Senador Mozarildo Cavalcanti.
De fato, é muita gente preocupada para, na verdade, não cuidar
do meio ambiente nem de seus próprios índios. “Quando a
esmola é grande o Santo desconfia”.
O próprio Senador Mozarildo denuncia desvios de verbas federais efetuados
por algumas dessas ONGs que poderão vencer algumas das licitações
do PL 4776 por serem do interesse de nossos investidores internacionais.
O então Ministro da Defesa, José Viegas, admitiu, na Câmara
dos Deputados, a existência de ONGs nocivas à Amazônia.
O General Cláudio Barbosa de Figueiredo, ex-Chefe do Comando Militar
da Amazônia (CMA) admitiu que 80% das ONGs existentes na Amazônia
são internacionais.
Diante de tudo isso, senhor Senador, temos receio de que nossa Amazônia
seja, enfim, internacionalizada, não pela força das armas, mas
pela força do poder econômico mundial e pela submissão
imposta aos países do Terceiro Mundo.
Em nossas considerações finais, rogamos a Vossa Excelência
considerar, além dos aspectos éticos e morais da medida, a possibilidade
do Projeto ferir a Constituição Federal por pretender a “transferência
de função exclusiva do Congresso Nacional e do Conselho de Defesa
Nacional a órgão do Poder Executivo atípico, que seria
dotado de absoluta autonomia administrativa e financeira e que não se
sujeitaria a qualquer controle da sociedade. Riscos evidentes à soberania
brasileira em zonas isoladas do território nacional, onde o ingresso
de órgãos fiscalizadores dependeria de autorização
prévia do órgão cuja criação se propõe.
Criação de fundo público com recursos orçamentários
e receitas resultantes da exploração do patrimônio público,
cuja gestão com absoluta autonomia ficaria a cargo do novo órgão
do Poder executivo sem qualquer controle do Congresso Nacional ou da sociedade
civil. Isso afronta os incisos XVII, do Artigo 49, e III do Artigo
91 da Constituição Federal, alem de afrontar a ordem democrática,
desrespeitar direitos já reconhecidos pelo Estado quanto à ocupação
de terras pelas comunidades que residem em florestas públicas, e contrariar
os princípios administrativos vinculados à gestão transparente
da coisa pública” (Anexo 10).
Pensamos que a medida possa, ainda, afrontar o disposto no Decreto Lei nº 1001,
de 21.10.1969:
“Tentar internacionalizar, por qualquer meio, região ou parte do
território nacional: pena – reclusão de quinze a trinta anos,
para os cabeças; de dez a vinte anos, para os demais agentes” (art.
142, alínea III).
Não desconhecemos a importância de nossos recursos naturais e
muito nos orgulharia o título de benfeitores se pudéssemos desenvolver
projetos que nos permitissem usufruir dessa imensa dádiva em beneficio
de toda a humanidade.
Se o mundo inteiro tem interesse na preservação de nossa Floresta,
pelo que ela representa em termos de salubridade, depois de terem destruído
as que existiam em seus próprios territórios, deve haver outras
maneiras de se conseguir ajuda mundial sem ser essa que nos coloca com o sentimento
de um povo incompetente ou submisso aos interesses mercantilistas.
Talvez esteja faltando ouvir aqueles que, de fato, desejam fazer do Brasil
uma Grande Nação.
À consideração de Vossa Excelência, com o nosso mais
sincero respeito, consideração e estima.
Movimento
Nova Inconfidência – MNI
Ivan Kardec Franco
Presidente em exercício
(Originais em papel timbrado e assinados)