ESTADO E MERCADO

Estado mínimo e fraco. Mercado livre e forte. Dois ingredientes, aliados a 30 anos de irracionalidade e irresponsabilidade neoliberal, fermentaram a maior crise financeira mundial desde 1929. O Estado, sempre tido como problema para os ideólogos do neoliberalismo, de repente passou a ser solução para cobertura dos prejuízos de bancos, financeiras, especuladores e afins. O grupo, protegido pela desregulamentação do mercado, deixou à mostra seus fundilhos sujos e putrefatos.

Nas manhas e artimanhas dos ultraliberais, criou-se o chamado mercado de derivativos que a publicação inglesa "The Observer" classifica como negócios anônimos em papéis e derivativos complexos e instrumentos misteriosos que estão no cerne da crise atual, porque foram usados para disfarçar a responsabilidade por inadimplências, disseminando o risco oculto por todo o sistema global (CartaCapital, edição 518). Esse mercado detém uma montanha de papéis, possivelmente podres, que, na avaliação do BIS (Banco para Compensações Internacionais), alcançaram em dezembro de 2007 a espantosa cifra de US$ 596 trilhões (isso mesmo: trilhões), correspondente a mais de dez vezes o PIB mundial (FSP, 20/10/2008).

Diante do terremoto financeiro que sacudiu a economia mundial, quebrando empresas e aumentando o desemprego, uma indagação pertinente: por que as agências de classificação de risco e as inumeráveis consultorias econômicas mundo afora não captaram tempestivamente os sinais desses tremores? O mundo não pode conviver com tantas incertezas, que favorecem apenas os ganhadores de sempre, isto é, os donos do mercado. Urge uma ação conjunta dos governantes dos países ricos, emergentes, submergentes objetivando aguilhoar o mercado transgressor, e impor regras para limitar a ação deletéria do capitalismo predador.

23/10/2008

Lúcio Flávio V. Lima

lucio.maisa@terra.com.br