Todos
de nós, que temos mais de 50 anos, crescemos em um país que não merecíamos.
Nos meados de 60 ou 70, cursávamos uma Universidade sem livros, pois a ditadura
militar considerava suspeitos quaisquer autores que discursavam sobre política.
Foi assim que as aulas de OSPB, EPB, Moral e Cívica entraram em nossas vidas
para tentar nos convencer de que tudo estava certo. Assistimos, eufóricos, a
Abertura Política, a Anistia Ampla Geral e Irrestrita, a volta do irmão do
Henfil, Gabeira, Brizola e até do Chico Buarque. Nessa leva “voltou” também
FHC, que partira sem necessidade de ir e voltou já dando um sinal do
oportunista que hoje todos nós reconhecemos.
Fomos para as ruas gritar pelas Diretas Já. Vivemos desgovernos
Figueiredo e assistimos Tancredo ser eleito para depois vir a falecer e assumir
o Planalto a pálida figura de Sarney. O país caiu na besteira de eleger
Fernando Collor quando as esquerdas teriam tudo para fazer a dobradinha sonhada,
Lula/Brizola. Sem olhos para ver, PT e PDT não souberam guardar as divergências
periféricas para pensar um Brasil possível.
De Collor para cá foi o caos. Apenas salvou-se a breve passagem de
Itamar Franco pelo Palácio. Sem grandes arroubos, contando com a má vontade da
mídia, a figura de Itamar consolidou o que o país mais carecia: honestidade,
transparência, pudor político. O Real e a aparente estabilidade da moeda nos
fez engolir FHC. Mesmo quem não votou em FHC estava relutante em desmerecer o
esforço do Governo no combate à inflação. Muitos não sabiam o preço que
pagaríamos pela frágil moedinha de Real.
Com FHC veio a entrega do país à iniciativa internacional, vieram as
Teles, os planos de saúde estrangeiros, as montadoras de carros de luxo que nem
são apropriados à péssima qualidade de nosso asfalto. E tome celulares
comprados quase de graça, enquanto as favelas, os pequenos municípios, o meio
rural, sequer tem um telefone fixo que funcione. E tome saúde vendida como
mercadoria que compra quem pode pagar. Quem não pode continua morrendo às
portas do SUS.
Como se não bastasse tanto arrocho, tanto desemprego, tanto desmonte do
patrimônio nacional, começaram a pipocar as denúncias de corrupção. É
dossiê disto e daquilo, é Pasta Rosa, Vermelha, Laranja, é SIVAN, Sudene,
plataforma que explode, CPIs abortadas no nascedouro, painel do Senado cuja
violação coloca em dúvida toda e qualquer votação eletrônica e a anunciada
crise de energia... Anunciada, porque só Carolina (FHC) não viu.
Não verás país como este, disse o poeta. Certamente não
existe. E o pior é que não merecemos isso. O Brasil de FHC não nos merece. Ao
apagar das luzes da maior crise política do Senado – quando cai por terra um
Coronel ao melhor estilo dos cordéis, ao apagar das luzes de nossos lares –
quando a irresponsabilidade e incompetência de FHC brilham na escuridão para
quem quiser ver, temos a oportunidade de reconstruir um país. As eleições
2002 estão na ordem do dia e não temos o direito de errar de novo. O povo
brasileiro não pode repetir sósias de Collor, compadres de FHC e as esquerdas
terão à chance única de mostrar que sabem e podem dirigir o Brasil que todos
sonhamos e mais do que nunca, merecemos. Caso contrário a famosa luz no fim do
túnel será apenas o lume de uma vela que acompanhará nosso enterro.