Carta aberta ao Presidente Lula
“Valeu a pena viver o tempo que já vivi para ver um filho
do povo
enfrentando a mentira, o engodo, a farsa, engajado na reivindicação
de nosso país, sem medo de ser feliz”.
Paulo Freire. out.1989.
Prezado Presidente Lula,
Paulo Freire não viveu o suficiente para vê-lo no comando da
nação. E se aqui o cito é, tão somente, para dizer
a Vossa Excelência que podemos passar para a história porque simplesmente
dela fizemos parte ou porque, a exemplo de Paulo, fizemos a própria
história, transformando nossa realidade e desvelando nossa vocação
de líderes e construtores de um novo mundo.
Em suas mãos encontra-se o destino de milhões de brasileiros
que acreditaram na sua coragem de fazer do Brasil uma Grande Nação.
Sei que não é fácil conciliar todas as forças que
insistem na manutenção do status quo. Mas, algo é certo,
nem sempre uma segunda oportunidade nos é concedida.
Ao levar ao conhecimento de V. Exa. as considerações que faço
nesta carta, inspiro-me, ainda, na esperança de que elas possam, de
alguma forma, favorecer reflexões sobre um passado de luta “contra
as mentiras, os engodos e as farsas”, promovidos pelo poder que impede
a libertação de nossa gente e o sonho de fazer do Brasil um exemplo
para outras nações, também espoliadas por uma deletéria
Ordem Mundial.
Por isso, Presidente temos - nós e milhões de brasileiros - dificuldades
para entender as razões que o levaram a não cumprir as promessas
construídas e repetidas ao longo da história de 25 anos de um
partido fundado por V. Exa.
Custa-nos acreditar que tais compromissos não passaram de uma cruel
retórica eleitoral, tão ao gosto do sistema de dominação
de nossas elites, a iludir a consciência ingênua de nossa gente
inculta e humilde, capaz de aceitar qualquer Bolsa Auxílio como uma “verdadeira
benção de Deus”.
Durante mais de duas décadas, segundo Euler Conrado, dentre outros argumentos,
o PT defendeu o salário mínimo do DIEESE, como sendo o que atenderia
as necessidades básicas contidas na Constituição Federal.
V. Exa., dizia, então, que “os governantes de plantão não
o adotavam por falta de vontade política”.
Hoje representa um quinto do mínimo sugerido pelo mesmo DIEESE e o Ministro
do Trabalho, o ex-sindicalista Luis Marinho, simplesmente o defende como sendo
o “possível”.
O PT passou mais de duas décadas criticando o FMI e sua política
neoliberal, defendendo a auditoria de nossa dívida em favor do social
e dos investimentos na produção para geração de
empregos.
Vossa Excelência chegou a afirmar em 2002, na França, que “não
poderíamos pagar a dívida com a fome e a miséria de nosso
povo”.
Entretanto, V. Exa. aprofundou a política do superávit primário
para pagar os serviços de uma dívida, hoje na casa dos 140 bilhões
de reais anuais; colocou e blindou no Banco Central ninguém menos que
um quadro do PSDB, o ex-presidente do Bank of Boston, segundo maior credor
do Brasil, o Sr. Henrique Meirelles, hoje sob investigação e
com processo na justiça autorizado pelo STF, e que apóia a política
de juros altos favorecendo apenas os banqueiros e nossa cruel elite. (www.stf.gov.br/
inquérito nº 2.206-3, de 05.04.2005, “Crime Contra o Sistema
Financeiro Nacional”; “Evasão de Divisas” e “Crime
Eleitoral”).
Importante ressaltar que até o Financial Times, registrou que V. Exa. “agrada
as elites e entristece os trabalhadores”.
Quando na oposição, V. Exa. denunciava as “privatizações-doações
praticadas por FHC e seus comparsas do PSDB-PFL”; Dizia que “era
um crime entregar as estatais para grupos privados e que era preciso fazer
uma auditoria pública”.
Hoje, no Comando Central, nada fez. Pelo contrário, não mais
apóia a auditoria e entregou as diretorias e demais cargos das estatais,
que restaram, para uma disputa interesseira de integrantes de vários
partidos da chamada base aliada e do próprio PT.
As CPIs das Privatizações foram esquecidas; a abertura das contas
secretas do ex-assessor presidencial de FHC, Eduardo Jorge, e os seus onze
processos, “foram arquivados no Senado”.
Durante 25 anos V. Exa. e o PT defenderam uma política de distribuição
de renda que reduzisse o “abismo entre a minoria rica do país
e a grande maioria de pobres e miseráveis”.
Hoje, no poder, distribui migalhas para os mais pobres e fortunas para os ricos.
O Bolsa Família, por exemplo, repassa em média, 65 reais por
mês para 7 milhões de famílias. Para uma família
de 04 pessoas, isso representa 0,54 centavos por dia por pessoa. Já para
os ricos, garante cerca de R$ 140 bilhões anuais com os “abusivos” juros
da dívida pública. Uma lamentável e injusta distribuição
de renda criticada, inclusive, pelo próprio Banco Mundial, em artigos
publicados na Folha de São Paulo em 21 e 26.09.05.
A promessa de que teríamos uma educação de fazer “inveja
ao Primeiro Mundo”, garantindo escola de qualidade para todos, salários
mais dignos para os profissionais do magistério ficou numa tênue
amostra deixada por profissionais e educadores que pensam abandonar o próprio
partido.
Os programas de investimentos pesados na saúde, no saneamento básico
e na habitação popular deixam muito a desejar ou continuam no
papel à espera de parcerias que preferem a especulação
financeira ao invés de aplicações temerárias de
longo prazo.
A “defesa de nossa soberania”, tão apregoada por V. Exa.,
em tempos recentes, hoje se encontra ameaçada pelo Projeto de Lei 4776,
de iniciativa Presidencial, idealizada por FHC (PL/7.492, de 17.12.2002, “Concessão
de Florestas Públicas”), que prevê o loteamento sustentável
de parte da Floresta Amazônica ao grande capital; pelo sucateamento de
nossas Forças Armadas; pela aceitação da idéia
de Soberania Relativa, imposta pelos Estados Unidos, através do Consenso
de Washington, bem como, pelos leilões, iniciados por FHC, de nossas
bacias sedimentares, que são áreas potencialmente produtoras
de petróleo, numa cruel entrega das reservas de nosso povo e que, em
breve, estaremos comprando, a peso de ouro. O exemplo do México parece
não sensibilizar o coração de V. Exa.
Se FHC veio com o propósito de destruir a “Era Vargas” – único
Presidente disposto a construir politicamente uma verdadeira nação
soberana – V. Exa., conscientemente ou não, encontra-se a serviço
de tão inglório e nefasto destino.
Em que pese o carisma de V. Exa. e a facilidade de identificação
e de aceitação junto ao nosso amargurado povo gostaríamos
de lembrá-lo que V. Exa. foi eleito, antes de tudo, por defender idéias
contrárias às políticas neoliberais que pregam a submissão,
a subserviência e a eterna dependência dos países chamados
de Terceiro Mundo.
V. Exa. foi eleito com a promessa de ser um anti-fernando e não para
dar continuidade a uma política nefasta e servil.
Até mesmo a transposição das águas do São
Francisco foi idéia de FHC, conforme discurso do então Presidente
ao Senado Federal em dezembro de 2000.
Não somos contrários às idéias que atendam as reivindicações
de nosso povo.
O que gostaríamos de entender é a “obsessão de V.
Exa. em cumprir uma agenda pré-estabelecida”.
Jamais elegeríamos uma “esquerda” para realizar o trabalho
da “direita”. O que lamentamos é o continuísmo de
uma eterna “herança maldita”.
Jamais afirmaríamos que o país, nas mãos de V. Exa., não
cresceu ou que não é bem visto pela comunidade internacional.
Reconhecemos o papel de V. Exa. na projeção do Brasil no cenário
mundial e o parabenizamos por isso.
Não podemos, também, negar que os números midiáticos
têm apresentado algum sucesso na economia brasileira: cresce a exportação
e o agro-negócio; a indústria também, apesar de estar
distante de oferecer os dez milhões de empregos prometidos.
Mas, quem se beneficia desse aparente “êxito”, senhor Presidente?
Os milhões de assalariados? Os aposentados? Os servidores públicos?
A massa de desempregados? Os milhares de sem-terra? Os sem-teto? Os favelados?
Os cortadores de cana? Os que vivem no trabalho-escravo?
Que política é essa que V. Exa. insiste em dizer que “deu
certo” enquanto os próprios mecanismos internacionais de avaliação,
principalmente da ONU, dizem que nosso IDH (Índice de Desenvolvimento
Humano) é um dos piores do mundo?
O que dizer quando a ONU e o próprio Banco Mundial confirmam que a distribuição
de renda, no Brasil, em função de nossa elite, é uma das
piores do mundo, só ficando na frente de quatro simples e miseráveis
paises africanos?
Custa-nos acreditar que uma Argentina, totalmente falida em 2001, dando a volta
por cima, foi capaz de chegar em 2005 com um crescimento maior que o do Brasil.
E mais, reduziu sua dívida, através de exaustivas negociações
em 76%, devendo, hoje, apenas US$ 30 bilhões, com total confiança
dos investidores internacionais.
Um feito exemplar que não concordou em pagar uma dívida com a
miséria de sua gente.
Em que pese a iniciativa Argentina ter sido um sonho de décadas sonhado
para o Brasil, nenhum apoio, nenhum voto de congratulações partiu
do governo de V. Exa. pela conquista do nosso pais vizinho.
Finalmente, Senhor Presidente, dentro do espírito que nos move a conhecer
as razões da mudança de nossos líderes, no propósito
de não mais repetirmos os mesmos erros, rogamos nos informar o porquê de
sua filiação, desde 1985, aos quadros da ONG Diálogo Inter-Americano,
criada sob os auspícios do Congresso dos Estados Unidos, conforme nos
informa o Presidente daquela Organização, Sr. Peter Hanki, em
expediente de 27.07.2005.
A referida ONG, até hoje, co-presidida por Fernando Henrique Cardoso,
tem entre seus membros os senhores Henrique Campos Meirelles, Celso Lafer,
Emerson Kapaz, Armínio Fraga, Raul Alfonsín, Violeta Chamorro,
Mario Vargas Llosa, Javier Perez de Cuéllar, Enrique Iglesias, Júlio
Maria Sanguinetti, etc., e é financiada por algumas instituições
como: Fundação Ford, Fundação GE, IBM Corporation,
Banco Inter-Americano de Desenvolvimento (BID), Fundação Robert
MacNamara, Fundação Rockefeller, USAID, Banco Mundial, etc.,
de acordo com o site norte-americano www.thedialogue.org .
Temos dificuldades para entender a simpatia de V.Exa. por uma entidade responsável
pelo Consenso de Washington, e contrária aos nossos ideais de Soberania,
Liberdade e Independência, tão apregoados por V. Exa., num passado
ainda recente.
São essas as considerações que levamos a V. Exa., na esperança
de que possa nos dizer as razões que o levaram a não cumprir
os princípios ideológicos de um partido fundado por V. Exa.,
apoiado por inteligências nacionais e internacionais, que tanto admiramos
e que, infelizmente, começam a abandoná-lo.
Se soubermos, pelo menos em parte, as razões de V. Exa., talvez possamos,
com uma nova concepção ideológica, formar indivíduos
capazes de não cometer os mesmos erros e as traições pelas
quais V. Exa., há pouco, pediu desculpas à nação.
Ainda, assim, Presidente Lula, acreditamos que a magnitude de vosso coração
e a inquietude de vossa consciência hão de nos devolver a esperança
e o sonho que, nas urnas, depositamos em vossas mãos.
Fraternalmente,
Ivan Kardec Franco
Presidente em exercício do Movimento Nova Inconfidência - MNI